D! NEWS Nº 12 – Ago/2026

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Essa é a pergunta que movimenta a 18ª edição do nosso IC Encontro de Artes. De 26 a 29 de agosto, em seis diferentes espaços de Salvador, o festival apresenta oito espetáculos nacionais e internacionais, dois bate-papos e a Ocupação Casa da Mãe, com quatro noites de shows. A D!MENTi News chega aqui para contar tudo!

Desde 2006, quando foi criado, o IC Encontro de Artes, que é um festival multilinguagem realizado pela Conexões Criativas em parceria com a Dimenti Produções Culturais, tem suas edições orientadas por um lema: uma questão provocada por inquietações contemporâneas que motivam a composição da curadoria, realizada por Ellen Mello, Jorge Alencar, Larissa Lacerda e Neto Machado.
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Ao articular cenas e dramaturgias do cuidado, o festival propõe uma oportunidade de o interligar às palavras “cultura”, “cura” e “curadoria”. Enquanto “cultura” está ligada a práticas de cultivo, hoje também nomeando processos de formação de subjetividades e de produção simbólica, a palavra “cura”, antes de nomear o restabelecimento da saúde, diz respeito a zelo, atenção, responsabilidade, dedicação: curar é, antes de tudo, cuidar.
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Talvez por isso, a palavra cura habite em “curadoria”. Em termos históricos, o exercício da curadoria está vinculado à organização, à preservação e ao cuidado de um conjunto de artistas, obras e ações, bem como seu campo de relações, modos de compartilhamento e mediação, atravessado por aspectos infraestruturais. Um gesto de organizar encontros, tensionar perspectivas e narrativas, criando condições para que diferentes presenças, saberes e experiências possam coexistir e se afetar mutuamente.
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Desse modo, o IC18 questiona que ações e posições compõem cenas de cuidado nas artes – e além delas, compreendendo o cuidado como uma ideia multifacetada, que tanto faz parte do cotidiano das pessoas quanto de ambientes de reflexão crítica, filosóficos e acadêmicos, também associado a dimensões ambientais, geopolíticas e sobre raça e gênero. O cuidado é uma prática infraestrutural, sem a qual a vida sequer é viável. É trabalho, frequentemente não remunerado. Entre corpos, relações, territórios, natureza, instituições, artefatos e memórias, o cuidado é condição da existência em comum.
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Na programação, estão presentes obras que ativam a questão do cuidado de variadas formas. Para além da literalidade, o tema aparece no tensionamento, na demanda, nas relações com o público. Surgem negligências, desaparecimentos, sobrecargas naturalizadas, controle disfarçado de proteção, resistência confundida com invulnerabilidade – como na existência resiliente do cacto, iconografia apresentada na identidade visual do evento.

IC18 Quem Cuida?

A artista Juliana Linhares canta: “Um dia eu sonhei que eu era um cacto/ Desses que tenho em casa e eu não cuido/ E que mesmo sem cor, sem água/ Sem ter flor pra dar/ Com os espinhos tortos ‘inda olha rindo”.
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A relação entre cacto e cuidado pode soar paradoxal. O cacto parece não precisar de nada. Aguenta calor, seca, solo pobre, indiferença e esquecimento. É fácil imaginá-lo como uma existência autossuficiente, forte o bastante para dispensar atenção. Espinhoso, até arisco. Alheio ao toque, fere. Sofre se regado demais.
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Cuidar de um cacto significa oferecer espaço e condições, sem excessos. Atentando às bases, vive longamente, belo, até floresce. Às vezes, depois de anos. Um exercício de cuidado a longo prazo, sem pedido evidente nem resultados imediatos.
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Para o IC18, o cacto aparece como uma iconografia da pergunta “Quem cuida?”. Entre proteção e vulnerabilidade, resistência e necessidade, aridez e reserva. Um corpo que guarda água no deserto, até nutre vidas. Mas que, para estar lá, reconhece bem suas demandas, reage e dialoga com o ambiente, o clima, o tempo, outros seres. O cacto nos lembra que sobreviver é resiliência e, sobretudo, relação.

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26/ago, 18h30 | Área externa do Teatro Experimental da Escola de Dança da UFBA | Classificação: Livre

A abertura do IC18 ecoa o cuidado em voz apropriada: mães. “Imunidade” é a mostra que resulta de residência artística realizada pelo festival a partir desta proposta de criação colaborativa desenvolvida pelas artistas Cândida Monte e Milla Jung (PR). Mulheres-artistas-mães de Salvador – Agatha Virgens, Celida Salume, Dellen Azevedo, Fernanda Silva, Lia Lordelo, Manu Moraes, Mariana Freire, Paula Lice e Yasmin Nogueira – fazem uma performance da voz e da presença, ativada como gesto de criação de novos imaginários, anunciando o cuidado como prática ética, política e econômica indispensável à vida, porém historicamente invisibilizada e desigualmente distribuída. A reflexão convoca à descolonização do tema e à reorganização do cuidar, transformando-o de fardo individual em um direito universal e ato de resistência.

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26/ago, 20h | Teatro Experimental da Escola de Dança da UFBA | Classificação: Livre

Espaço para respirar outros ares de uma cena do cuidado em que corpos masculinos sejam presentes. “VAPOR: ocupação infiltrável”, do Original Bomber Crew (PI), é parte de um vocabulário que surge nas biqueiras do Brasil e convoca a pensar nas pulsões de vida que se acendem nos becos urbanos e aquilombamentos das diversas “margens”. Vibra para outras percepções, presenças, paisagens, magias e tempos a ver com as entranhas e ditas periferias de nosso Pindorama. Homens do hip-hop, associados a um padrão reconhecível de masculinidade, ocupam uma ausência. Reconfiguram as imagens da rua e do espaço urbano, deslocando-o da dureza, da disputa e da hostilidade. Performam poéticas, pintam novas possibilidades e preenchem de outras formas a existência de seus corpos, da cidade, de suas relações, território e coletividade.

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27/ago, 18h30 | Espaço Cultural da Barroquinha

​Classificação: 16 anos

Vinda da Colômbia, “CHUQUICHINCHAY – La existencia de la androginia en los andes” é uma performance que conta da existência de seres andróginos do Império Inca, chamados Qariwarmis – fato desconhecido por comunidades indígenas e para a maioria das pessoas LGBTQIAPN+ de Abya Yala, nome dado ao continente americano pelo povo Kuna antes da chegada dos colonizadores europeus. Deste contexto e cosmogonia apagados da visão do mundo, a obra evoca Chuquichinchay, felino dançante, divindade da água, patrono dos povos indígenas de “dois gêneros”: um fundamento espiritual que confronta uma sociedade que fere e assassina corpos diversos. Numa cerimônia transancestral e de purificação, o ato é de reparação histórica e símbolo do cuidado com o luto, transformando o esquecimento em uma cena de honra e respeito.

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27/ago, 20h | Teatro do Goethe-Institut Salvador

​Classificação: 16 anos

O IC18 acolhe uma pré-estreia: “Guia Ilustrado para Desobedecer”. Nesse solo, Larissa Lacerda (BA) expande uma investigação que toma suas próprias memórias para pensar a criação como espaço de elaboração de traumas e, especialmente, de afirmação da vida. A peça rompe com silenciamentos históricos sobre existências lésbicas como uma espécie de contra-arquivo que põe em cena a experiência singular de uma mulher lésbica, filha e irmã de mulheres lésbicas. Uma criança que viveu certo isolamento social devido a esta estrutura familiar que não corresponde à moral pré-estabelecida pela sociedade heteropatriarcal. Em vez de oferecer instruções para um bom funcionamento, este “Guia” apresenta estratégias e ferramentas para desafiar normas hegemônicas. Um manual para compor um outro projeto de mundo.

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28/ago, 18h30 | Teatro do Goethe-Institut Salvador

​Classificação: 18 anos

A performer, videoartista e terrorista poética Estela Lapponi (SP) apresenta “¡la Asimetría es más rica!”, uma ação ritualística e antropofágica para a digestão de uma ideia contracolonial. E se a assimetria é mais gostosa, é hora de comê-la e, enfim, digeri-la. Estela afirma repetidamente que “¡la Asimetría es más rica!”, de diferentes formas, deglutindo os sentidos e propondo ao público uma ideia anticapacitista. E se nem toda proteção liberta, o IC18 lembra também que o cuidado não pode ser pretexto para limitar a autonomia e reproduzir o capacitismo.

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28/ago, 20h | Cineteatro 2 de Julho

Classificação: 14 anos

Em “Minha mãe e eu, e a mãe da minha mãe”, Fabio Vidal (BA) atua ao lado da mãe, Rosvanda Melo. Uma narrativa autobiográfica que entrelaça temas universais como o envelhecimento e o cuidado familiar. Estreada em 2025, a peça marca um encontro emocionante entre as histórias de três gerações de mulheres, revelando memórias e afetos. Com teatro, contação de histórias, canto, bordado e culinária, a obra também homenageia Agostinha, avó de Vidal, falecida aos 80 anos, vítima da Doença de Alzheimer, e sua bisavó, Pureza. Assim, atravessa mais de cem anos de memórias familiares, trazendo à tona a trajetória de mulheres nordestinas e suas lutas, além de propor uma reflexão sobre o envelhecimento e o lugar das pessoas idosas na sociedade.

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29/ago, 18h30 | Espaço Cultural da Barroquinha

Classificação indicativa: Livre

Vindo da Argentina, “La gravedad del encuentro” une corpos, pedras, solo, fricção, impactos e poeira em práticas de associação e colaboração que permitem suspender aquilo que consideramos estável. Entre laços marcados pela erosão, sedimentos e transformação contínua, a peça propõe construir uma forma compartilhada de ser baseada no cuidado. A gravidade, essa força inerente a toda matéria que mantém os corpos unidos e em constante atração, é também uma força que nos move, nos constitui e nos permite permanecer conectados. Onde há conexão, constrói-se apoio. Um espaço para se apoiar – ou do qual se libertar.

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29/ago, 20h | Cineteatro 2 de Julho

​Classificação indicativa: 16 anos

Em “Manifesto Transpofágico”, Renata Carvalho convida o público a olhar para o seu corpo travesti, incansavelmente, e apresenta a sua historicidade e construção. Com uma produção artística que coloca seu próprio corpo como campo de investigação e debate em cena, ela denuncia a construção social, midiática, patológica, religiosa, criminal e hipersexualizante que permeia o imaginário sobre pessoas trans e travestis. E abre espaço para a conversa e para nos confrontarmos: que sentimentos a palavra e a existência travesti mobilizam? “Hoje eu resolvi me vestir com a minha própria pele. O meu corpo travesti”. Renata se alimenta da sua “transcestralidade”. Letreiro pisca TRAVESTI. Nesta presença, o IC18 põe em questão a lacuna de cuidado que persiste diante dessa população.

Para mais detalhes, acesse icencontrodeartes.com.br

O IC18 faz da Casa da Mãe o ponto de encontro oficial do festival. Nos quatro dias do evento, sempre a partir das 21h30, noites de festa e música tomam este lugar que tão bem cuida da cena artística de Salvador. São 20 anos de história, sob os cuidados da cantora, compositora e chef Stella Maris. Um território de convivência que abraça artistas e públicos, refúgio criativo, partilha em movimento constante. Com esta parceria, o IC reverencia uma Casa que leva a Mãe no nome, protegida por Iemanjá, abrigo cultural e afetuoso da cidade.

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A artista multilinguagem paulista Iara Rennó recebe participação especial de Gabi Guedes. Após dois anos sem se apresentar em Salvador, ela faz show com seu “violão envenenado”, perpassando o repertório de seus discos mais emblemáticos, como “Oríki” (indicado ao Grammy Latino), “Orí Okàn”, “Arco”, “Flecha” e “Macunaíma Ópera Tupi”.

Formada por Bruna Barreto, Clara Elisa, Ju Paim “Surfistão”, Pitty Ferreira e Tati Sales, a Cheiro de Couro é um movimento de artistas lésbicas que se debruçam sobre o forró – gênero que carrega consigo comportamentos machistas do país. Com o desejo de transformação dessa realidade, elas chegam demarcando seu espaço, cheias de orgulho de si.

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Conhecido por seus trabalhos homenageando artistas como Cartola, Lupicínio Rodrigues, Dolores Duran e Luiz Melodia, o cantor e ator Pedro de Rosa Morais agora faz o novo show “Pedro Canta Lulu”, com repertório de Lulu Santos. A banda é formada por Paulo Mutti (guitarra), Fabio Rocha (baixo) e Flavinho Drums (bateria).

O Samba de Pretas leva no nome a ancestralidade e a força das mulheres negras. Formado em 2022, reúne jovens que se propõem a repensar como o samba é ocupado, afirmando que esse território também é, e sempre foi, das mulheres pretas. O repertório mescla samba de roda, pagode, samba raiz e releituras da MPB, atravessando gêneros como o ijexá com roupagem original e potente.

O IC18 também reserva espaço para a formação coletiva e a construção de pensamentos sobre cenas e dramaturgias do cuidado. Serão dois bate-papos na Casa Arte Dá Trabalho, com entrada gratuita, sempre às 16h.

Em 28 de agosto, “Quem é você na cena do cuidado?” reúne artistas participantes do festival para falar sobre as cenas de cuidado criadas e praticadas em suas obras e trabalhos.

Já no dia 29, em “Curadoria como cuidado”, a artista, curadora e gestora cultural argentino-brasileira Jimena García Blaya, a partir de sua experiência na gestão artística, na criação de redes e no desenho de projetos colaborativos, propõe pensar o cuidado como uma tecnologia da prática curatorial: um modo de fazer que desenha tempos, vínculos, mediações e infraestruturas capazes de sustentar processos.

O IC Encontro de Artes conta com apoio plurianual do Edital de Eventos Culturais Calendarizados, realizado pelo Estado da Bahia, através do Fundo de Cultura, Secretaria de Cultura e Secretaria da Fazenda: um mecanismo fundamental para assegurar alguma estabilidade à realização desses eventos — a exemplo de mostras e festivais —, com natureza estruturante e continuada, no que diz respeito à formação de um calendário cultural, e estratégica, enquanto catalisadora de uma política pública.
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O IC18 também tem apoio do Programa Ibercena, fundo que estimula a circulação das artes cênicas no espaço cultural ibero-americano, realizado no Brasil pela Fundação Nacional de Artes (Funarte) e Ministério da Cultura (MinC). A presença das duas obras internacionais da Ibero-América nesta edição resulta de uma convocatória que contabilizou 120 propostas inscritas de 13 diferentes países.

O IC Encontro de Artes tem a honra de mais uma vez trazer Renata Carvalho a Salvador. O Arquivo D! lembra do IC12, realizado em 2018, movido pelo mote “Arte como Luta”. Na programação, esteve o espetáculo “Domínio Público”, em que Renata divide cena com Elisabete Finger, Maikon K e Wagner Schwartz – quatro artistas que foram foco de acalorados debates em torno da liberdade de expressão, censura e limites na arte.

Na peça, o quarteto propõe uma reflexão a partir dos ataques sofridos, tomando como ponto de partida um dos ícones da história da arte: a Mona Lisa. Assim, revelam como uma obra pode ser utilizada em diferentes narrativas ao longo dos tempos, incitando as mais diversas reações, espelhando os fatos e absurdos de nossas sociedades.

Em 2026, Renata Carvalho celebra 30 anos de teatro. Artista, cientista social, transpóloga e ativista dos direitos humanos e LGBTs, ela estuda corpos trans/travesti desde 2007, mesmo ano do seu percebimento travesti. É fundadora do MONART – Movimento Nacional de Artistas Trans e do Coletivo T, primeiro coletivo artístico brasileiro formado integralmente por artistas trans.

Dimenti Produções Culturais

www.dimenti.com.br

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